segunda-feira, 30 de maio de 2016

Mr. Surf



Há uns anos, tinha eu o apartamento a pouco tempo e fui contactada por um homem português para eu ir ter com ele a Figueira da Foz.. Apesar de não ser longe, também não é perto e como "agora" eu até já tinha um sitio meu para atender embirrei que se ele queria estar comigo, teria de vir ele a Leiria.. Andou a ligar me mais de uma semana a pedir e a insistir para que eu fosse, ( não sei se hoje teria a mesma dose de paciência, confesso) e eu vencida talvez pela persistência mas de certeza pela curiosidade que a sua voz me despertou, no ultimo dia que ele me quase me implorou para ir , peguei no carro a noite e fui..

Lembro me ate hoje daquela voz grave, calma, meiga, cativante, com cultura, conhecedora das palavras certas e que me fez pensar várias vezes que ficaria tão bem por detrás de um qualquer microfone de radio..

Naquela altura eu ainda era menina de criar expectativas ( ainda bem que já me deixei disso) e sempre associei aquela voz poderosa a alguém envolvido no mundo das finanças, das leis ou no mínimo no meio empresarial, ou seja metida num qualquer fato que precisasse de gravata ou então numa camisa e calças perfeitamente vincadas.. E foi o mais clássico possível que me vesti com calça preta vincada, top vermelho escuro com o tecido a cruzar a frente fazendo um franzido engraçado e um decote subtilmente atrevido, lingerie de renda preta e claro, salto alto..

Combinamos encontrar mos num centro comercial a norte da Figueira e eu cheguei antes da hora pois queria ver antes de ser vista.. Subi ao ultimo andar para poder ter uma vista estratégica de todo o espaço e aguardei calma e expectante..

Passado um bom bocado ele liga e pede para ir ter com ele ao parque de estacionamento e achei aquilo muito estranho.. Apesar de já estar a fugir ao pré combinado... “ ao parque de estacionamento??!! “ , mas pronto lá fui e se até então os meus “radares “ estavam adormecidos , enquanto fui descendo ao seu encontro, senti os a ficarem um pouco em standby..

Com o tlm ao ouvido e com frases “ então mas estás em que parte? “ , dou por mim quase de repente defronte de um sujeito que primeiramente me pareceu um rapaz de vintes e poucos, mas depois de olhar mais atentamente para a cara notei que já era trintão.. Ele todo sorridente e eu a recuperar do choque de realidade, pois em vez do engravatadinho “expectivado” era um surfista hippie com direito a roupas coloridas, cabelo louro algo comprido e bastante queimado do sol..

Atordoada dei por mim a olhar para um flyer promocional de uma pousada surfista que ele me meteu na mão dizendo que era para lá que ia mos e para eu o seguir no carro..

Hoje e voltando a fita tanto para trás e tentando compreender como tudo se passou e principalmente a minha atitude, acho que fiquei muito renitente em o seguir devido a ele ser uma pessoa totalmente diferente a que eu esperava, e reconheço que fui naquele momento e nos momentos a seguir fui um estive a roçar o preconceito e se um dia me voltar a cruzar com ele, com toda a certeza que lhe pedirei uma vez mais desculpa.. Estive mesmo para me recusar a segui lo apesar dele me garantir que nada me iria acontecer, que já me tinha mostrado o sitio como sinal de boa fé e depois de muita hesitação aceitei.. Os “radares” continuavam em standby..

Ele disse me que ia buscar o carro e quando ele passa se para eu o seguir e eu assim fiz.. Mas reparei que a carrinha audi tinha matricula espanhola e não sei porque foi nesse momento que os meus “radares” dispararam alertas por todos os lados.. Peguei no tlm e enviei um sms a um amigo meu com o modelo, cor , matricula, sitio, nome da pousada.. ( desculpa por todas as preocupações que te dei) ..

Estou neste momento a recordar me perfeitamente de tudo o que pensei e senti enquanto segui aquele carro desconhecido por estradas desconhecidas que a dada altura deixaram de ser alcatroadas e iluminadas .. Onde a vegetação se ia adensando na mesma medida que me ia crescendo a ideia que a coisa ia correr mal e o mais provável era eu estar a ir pelo meu próprio pé ao encontro de uma qualquer rede mafiosa de trafico humano, que nunca mais veria a minha família e mais tarde ou mais cedo acordaria ás postas numa valeta qualquer..

Se tive a sensatez, inteligência e esperteza de voltar para trás? Não..

Não sei porque, sinceramente não sei mesmo porque , mas não dei a volta para trás ao meu carro e deixei me ir ..

Chegados ao sitio, reparei que era muito isolado no alto de uma colina ( mesmo porreiro para cenário de um qualquer filme de terror que gosto tanto ), mas com a exceção de uma ou outra carrinha com publicidade ao sitio, não havia mais carro nenhum presente.. E isso descansou me um pouco..

Entra mos e ele mostrou me o sitio deserto quase todo, levando me de seguida para o quarto dele no ultimo andar, em que o quarto decorado em estilo indiano avançava pela varanda e com uma vista absolutamente deslumbrante sobre o mar e a cidade..

Apesar de não aceite o chá que ele gentilmente me ofereceu e me ter entregue o envelope da praxe com os honorários combinados onde ainda acrescentou uma nota extra , fica mos um pouco a conversar e apreciar a vista antes de ir mos para a cama e fazer mos amor carinhosamente por duas vezes..

As ruas não me pareceram tão assustadoras a descer ..


A uns tempos valentes contei isto tudo a um cliente ligado as espiritualidades reikianas e ele disse me que no meu intimo eu sabia estar em segurança , pois a minha sensibilidade não tinha detectado energias negativas na outra pessoa.. Que tudo o que senti foi uma luta entre a minha razão e o meu subconsciente .. hummmmmmm............... Eu continuo a achar que tive muita, mas mesmo muita sorte..



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